Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel deflagraram as operações "Fúria Épica" ("Epic Fury") e "Leão que Ruge" ("Roaring Lion"), compostas por ataques múltiplos e coordenados a alvos estratégicos no Irã, que resultaram no assassinato do Aiatolá Ali Khamenei e de outras altas lideranças da República Islâmica do Irã (incluindo comandante da Guarda Revolucionária e o ministro da Defesa), além, é claro de centenas ou milhares de civis, que são entendidos, pelos senhores da guerra de sempre, como mero "efeito colateral".
O objetivo declarado e/ou inferido dessa ação militar de “decapitação” é operar uma engenharia de regime, isto é, forçar uma mudança completa do arranjo de poder em Teerã (The Guardian, 2026). A operação, portanto, não se limita à neutralização de “capacidades” (mísseis, radares, cadeias de comando). Ela busca atingir a própria continuidade política do Estado iraniano. E, ao fazê-lo, solapa dois princípios organizadores da modernidade estatal: soberania territorial e integridade do comando político em situação formal de “paz” (isto é, sem guerra declarada e sem autorização multilateral).
A eliminação do líder supremo e de elementos da alta cúpula inaugurou uma crise de governança em Teerã, com a formação de um arranjo interino até a escolha de sucessor pela Assembleia de Especialistas, incluindo a nomeação de Alireza Arafi para o conselho de liderança (Reuters, 2026, online; Al Jazeera, 2026, online). Teerã é o centro de comando político, religioso e securitário do Irã; do ponto de vista geoestratégico, golpear a capital e eliminar seu vértice é atacar a própria existência do regime. Há interesses materiais em jogo que não podem ser varridos para baixo do tapete: Ormuz é um gargalo planetário, e a simples ameaça de interdição já é suficiente para produzir pânico logístico e volatilidade de preços. Não por acaso, a escalada foi seguida por salto expressivo no preço do petróleo e temor de ruptura no fluxo do Golfo (Reuters, 2026, online). Há, ainda, o tabuleiro maior: enfraquecer o Irã significa tensionar a projeção regional chinesa e russa e reprogramar a correlação de forças no Oriente Médio (Reuters, 2026, online). Porém, no plano imediato, a lógica predominante parece ter sido a de retirar do jogo um ator declarado inimigo, fortalecendo as posições estadunidenses e israelenses. Quanto ao chamado “arco de influência” iraniano no entorno regional, uma decapitação no centro tende a produzir crise de coordenação e desorganização nos vínculos por procuração. Isso não significa colapso automático de aliados como Houthis, Hamas e Hezbollah, mas significa, no mínimo, perda de direção unificada e aumento do custo político e operacional para manter uma estratégia regional coerente.
Em paralelo ao ataque físico, opera-se o desabrochar de narrativas favoráveis ao ato. Setores do discurso ocidental (mormente os detentores da grande mídia e das redes sociais) passaram a enquadrar a ofensiva como moralmente positiva sob o argumento de que abreviaria uma teocracia autoritária e, no futuro, melhoraria a condição das mulheres no país. Contudo, é possível (e devido) reconhecer o inaceitável caráter autoritário e repressor da República Islâmica sem embarcar inocentemente no "salto lógico" (e falacioso) que transforma uma mudança de regime "pelo alto" mediante assassinatos em legítimo ato de humanitarismo. Essa narrativa configura um verniz mal aplicado que tenta recobrir a superfície dos fatos com uma moralidade seletiva.
Na teoria do realismo estrutural em relações internacionais, tem-se visto por parte dos players majoritários o retorno do cálculo de sobrevivência pela desconfiança das garantias dadas pela ordem sistêmica. Kenneth Waltz descreve o ambiente internacional como um sistema no qual os incentivos para competir são fortes e, sob pressão, os Estados tendem a emular estratégias bem-sucedidas no passado (Waltz, 1993). Dessa forma, tomando por base a oportunista invasão dos EUA ao Iraque em 2003 (imaginando que a invasão ao Afeganistão de 2001 quardava uma mínima coerência de combate ao Taleban), se deu uma sucessão de eventos de afronta à ordem liberal do pós-Segunda Guerra - marcadamente as invasões russas da Crimeia (2014) e de toda a Ucrânia (2022), e, agora em 2026, as ações pontuais de sequestro de Nicolás Maduro (Venezuela) e assassinato de Ali Khamenei (Irã).
Não há ordem internacional baseada em diplomacia, multilateralismo, direito internacional e busca pelo livre-comércio que sustente tanto recurso ao "hard power". A ordem internacional baseada em regras é "ordem" e possui "regras" apenas quando convém. O resto é retórica. Aliás, o recente discurso do Primeiro-Ministro Canadense, Mark Carney, no Forum Econômico Mundial ("Forum de Davos"), é emblemático. Transcrevo alguns pontos (WEF, 2026, online) :
"Hoje falarei sobre uma ruptura na ordem mundial, o fim de uma ficção agradável e o início de uma dura realidade, onde a geopolítica, onde a grande potência, a geopolítica, não está sujeita a limites, a nenhuma restrição. [...]. Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa, que os mais fortes se isentariam quando lhes convinha, e que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional se aplicava com rigor variável, dependendo da identidade do acusado ou da vítima. [...]. Essa ficção foi útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos, rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de disputas. [...]. Este acordo já não funciona. Deixe-me ser direto. Estamos em meio a uma ruptura, não a uma transição. [...].
Na teoria realista em relações internacionais, Waltz (1993) afirma que “anarquia” não é caos absoluto, mas um ambiente estrutural de competição e incerteza, no qual a antecipação "do pior" é o fundamento da racionalidade política. Quando os precedentes de ruptura da ordem se impõem, os incentivos ao comportamento anti-sistêmico aumentam. Se a soberania estatal se mostra relativa, o cálculo de sobrevivência física prevalece. Quando do ataque estadunidense à Venezuela, a primeira reação do Presidente Lula foi convocar uma reunião de emergência onde, entre outros assuntos, questionou a cúpula das forças armadas sobre a capacidade brasileira de repelir evento semelhante no país. Se Lula preocupou-se com o que ocorreu na Venezuela, imagine-se como estão os pensamentos dos líderes do Oriente Médio neste momento...
Para os neoliberais Robert Keohane e Joseph Nye (2001) a vigência dos regimes internacionais (como as regras do "sistema ONU" ou da OMC) reduz custos de transação, produz informação e viabiliza acordos; quando esses regimes são ignorados, o custo da cooperaração internacional sobe, o custo de burlar a ordem diminui, e a incerteza se espalha. O que se viu no Conselho de Segurança, com condenação e impotência, é justamente a imagem de um regime internacional incapaz de impor previsibilidade (Associated Press, 2026).
Cabe também citar Huntington (1993) e o racismo que sua teoria do "choque de civilizações" alberga, há décadas sendo colocado em prática pelo discurso islamofóbico que teve seu auge durante a "Guerra ao Terror" e que, atualmente, é requentado pelo governo Trump e congêneres da extrema-direita europeia.
Com a morte de Khamenei, o problema imediato não é apenas “quem será o novo líder do Irã”. O desenrolar político imediatamente após o ataque fulminante é um dos maiores determinantes para a recomposição ou destruição do regime teocrático iraniano. A formação de um conselho interino e a indicação de Alireza Arafi como membro desse arranjo aparecem em relatos de imprensa (Reuters, 2026; Al Jazeera, 2026), porém, a grande força política interna é a Guarda Revolucionária, que possui a força bruta para impor à ordem sua vontade (The Guardian, 2026). Mas é preciso esperar a poeira das explosões assentar para entender que rumos o país tomará.
Os impactos da morte de Khamenei, portanto, extrapolam a soberania iraniana e seu futuro. Pouco tempo após o ataque à Venezuela, a decapitação da teocracia iraniana é um recado israelo-estadunidense nada sutil para todo o mundo (inclusive China e Rússia) de que a força bruta é a vontade última e que a própria potência hegemônica que estabeleceu a ordem então vigente a pode destruir, se isso lhe bem convier. O precedente agora está escancarado a quem mais quiser-lhe usufuir.
Referências bibliográficas:
ASSOCIATED PRESS (AP). US and Israel clash with Iran at emergency Security Council meeting; UN chief condemns attacks. New York, 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/ 9140bca9241fb99be8cb3cff2c650741. Acesso em: 01 mar. 2026.
HUNTINGTON, Samuel P. "The Clash of Civilizations?". Foreign Affairs, v. 72, n. 3, p. 39-49, 1993.
KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S. Poder e interdependência: a política mundial em transição. Tradução de Vera Ribeiro. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
REUTERS. Alireza Arafi appointed to Iran's Leadership Council, ISNA reports. Dubai, 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/media-telecom/alireza-arafi-appointed-irans-leader ship-council-isna-reports-2026-03-01/. Acesso em: 01 mar. 2026.
REUTERS. Oil jumps 10% on Iran conflict and could spike to $100 a barrel, analysts say. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/energy/oil-jumps-10-iran-conflict-could-spike-100-barrel-analysts-say-2026-03-01/. Acesso em: 01 mar. 2026.
THE GUARDIAN. Iran state media confirms killing of Ayatollah Ali Khamenei after US-Israeli missile strikes. London, 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/us-news/2026/feb/28/khamenei-likely-killed-us-israel-iran-strikes. Acesso em: 01 mar. 2026.
WALTZ, Kenneth N. The emerging structure of international politics. International Security, Cambridge, v. 18, n. 2, p. 44-79, 1993.
WORLD ECONOMIC FORUM (WEF). Davos 2026: Special address by Mark Carney, Prime Minister of Canada. World Economic Forum, 20 jan. 2026. Disponível em: https://www.weforum.org/stories/ 2026/01/davos-2026-special-address-by-mark-carney-prime-minister-of-canada. Acesso em: 1 mar. 2026.
