A trajetória histórica das relações políticas e diplomáticas entre Brasil e Argentina encontra-se inserida nas estruturas que organizam a América Latina como um espaço periférico do sistema-mundo [1] desigualmente articulado à economia global. A história argentina, sob o olhar brasileiro, desvela as inflexões da modernização dependente, da esperança frustrada de desenvolvimento pela industrialização e de loucas aventuras neoliberais, em vórtices de instabilidade política ancorados na vulnerabilidade externa argentina e nos perversos arranjos sociais e institucionais internos.
A Argentina, que na virada do século XIX para o XX parecia viver um processo de desenvolvimento econômico e social mais bem-sucedido que o brasileiro, transicionou gradualmente, de candidata a “potência industrial desenvolvida”, para "potência agroexportadora subdesenvolvida", em uma economia fortemente dependente do mercado internacional. A consolidação do Estado-nação argentino, marcada por disputas entre aventuras caudilhescas e projetos de centralização liderados por uma elite bonaerense, produziu um Estado ambivalente: por um lado, promotor da modernização; por outro, instrumento das oligarquias agrárias que subordinaram o país à demanda externa. A síntese dessa tensão entre dependência econômica e centralismo político foi o peronismo - frequentemente simplificado e reduzido, em terras tupiniquins, a um “varguismo argentino”, embora tenha sido (e ainda é) um fenômeno de densidade histórica e institucional muito mais profunda.
A forma política definida por Juan Domingo Perón (que governou de 1946 a 1955 e de 1973 a 1974) inscreve-se em um ciclo histórico de contestação à hegemonia liberal-oligárquica. Com retórica e ação ancoradas no nacionalismo econômico, no corporativismo estatal e na justiça social, o peronismo reconfigurou a relação entre Estado e classes populares, enfrentando resistência ferrenha das elites econômicas e de setores médios que o viam como ameaça à ordem liberal e à estabilidade monetária. Em seu governo (o primeiro), a industrialização por substituição de importações [3] foi combinada à ampliação de direitos sociais e à valorização simbólica do trabalhador organizado - sempre, a bem da verdade, sob a liderança de um Estado paternal, centralizador e autoritário. O peronismo representou um projeto de Estado e de nação baseado em progresso, nacionalismo e desenvolvimento social, que entrou em confronto direto com os pilares da velha elite. As feridas desse embate ainda seguem abertas na vida política argentina.
A queda de Perón, em 1955, inaugurou um ciclo prolongado de instabilidade estrutural, com alternância entre governos civis frágeis e ditaduras militares. A ditadura de 1976 foi a expressão máxima de um projeto autoritário de reorganização do Estado, da economia e da sociedade, marcado pela censura, terrorismo de Estado e desaparecimentos forçados (inclusive de bebês), além de um receituário econômico ancorado em abertura comercial, desregulamentação financeira e subordinação ao capital internacional. A derrota militar nas Malvinas (1982) precipitou o colapso do regime ditatorial, mas não reverteu seu legado estrutural: a redemocratização se deu sob a sombra da dívida, da inflação e da precarização de um modelo social até então avançado para os padrões latino-americanos.
O projeto social gestado ao longo do século XX, estruturado por setores reformistas, pelo peronismo e por ciclos progressistas posteriores, deixou marcas institucionais mais profundas do que aquelas observadas no Brasil. Mesmo enfrentando crises cíclicas gravíssimas (hiperinflacionárias, cambiais, fiscais, de confiança), a Argentina manteve indicadores sociais historicamente superiores aos do Brasil, especialmente em educação, saúde e previdência (em 2023, o IDH argentino foi de 0,865, contra 0,786 do Brasil). Não obstante o desmonte de parte significativa do modelo de bem-estar durante os ciclos neoliberais, a Argentina preservou em sua memória institucional um Estado social - algo que o Brasil nunca chegou a consolidar.
Durante a década de 1990, sob Carlos Menem, a Argentina tornou-se vitrine do receituário neoliberal da época, com privatizações em massa, paridade cambial artificial com o dólar, desmonte do Estado e financeirização acelerada. O colapso de 2001-2002 [2] foi o desfecho previsível dessa aventura neoliberal tresloucada, com o aumento da pobreza, o congelamento de depósitos bancários ("corralito") [4], o desemprego em massa, e o colapso institucional simbolizado pela queda de cinco presidentes em poucos dias.
Nesse contexto, um peronismo renovado, que renegou suas facetas autoritárias e resgatou suas raízes sociais, voltou ao poder com Néstor Kirchner e, depois, com Cristina Fernández de Kirchner, propondo um modelo alternativo, caracterizado pelo nacionalismo econômico moderado, pela revalorização do Estado, pela reindustrialização seletiva e políticas redistributivas. Apesar das tensões internas, denúncias de corrupção e entraves fiscais, o ciclo kirchnerista foi uma resposta ao desastre neoliberal e reconectou o peronismo à sua base histórica.
Com o desgaste do modelo "neoperonista" após a crise global de 2008, a eleição de Javier Milei, em 2023, representou o retorno a um liberalismo (agora, ultra-radical) sustentado por uma retórica antipolítica, pela romantização da estética outsider, e pela subordinação explícita aos Estados Unidos e ao capital financeiro global. O histrionismo de Milei o aproxima de Bolsonaro, mas seu projeto é mais coeso e sofisticado, e menos dividido internamente. Se o peronismo pode ser grosseiramente comparado ao varguismo, então Milei é um "Bolsonaro argentino", com um ultraliberalismo mais programático e mais bem amparado pelas redes transnacionais.
Sua ascensão foi moldada por conglomerados de mídia, think tanks liberais e setores financeiros interessados em impor, novamente, um receituário antissocial à Argentina. O discurso contra o “Estado parasitário” encontrou eco em uma sociedade exaurida pela inflação, pela frustração com o peronismo e pela desconfiança institucional. No entanto, por trás da performance de novidade, o projeto é o mesmo, marcado pelo desmonte de direitos, privatizações e subordinação ao capital transnacional. Em comparação com o Brasil, o projeto ultraliberal de Milei se mostra mais homogêneo e radical, sem os freios nacionalistas impostos ao governo Bolsonaro pelos setores militares e corporativos. Aliás, é importante compreender que o julgamento feito na Argentina pelos crimes da ditadura militar, e o processo de sucateamento das Forças Armadas realizado desde então por todos os governos civis, retiraram a caserna argentina da centralidade do jogo político.
A política econômica de Milei promoveu ganhos de curto prazo como redução do déficit e a contenção da inflação - mas à custa de uma acentuada erosão social. Cortes de subsídios, desmonte de programas sociais e supressão de direitos trabalhistas foram acompanhados por repressão policial às manifestações contrárias. A deterioração das outrora invejáveis condições de vida na sociedade argentina é ocultada por uma narrativa midiática de “recuperação econômica” que é amplamente divulgada, inclusive no Brasil - onde Milei muitas vezes é caracterizado como um político excêntrico mas que toma as decisões acertadas, uma espécie de "Bolsonaro que deu certo".
A grande mídia e setores da elite digital, alinhados ao mercado, fabricaram em torno do governo Milei uma realidade paralela, afinal, nos tempos atuais da “pós-verdade”, os fatos são selecionados conforme sua utilidade ideológica. Enquanto a pobreza e o desemprego crescem na Argentina, o noticiário brasileiro destaca a “confiança dos investidores” ou o "apoio dos EUA ao governo". A disputa não é apenas sobre interpretação dos fatos, mas sobre quais fatos devem ser mostrados e quais devem ser esquecidos.
Milei, portanto, não apenas governa a Argentina, mas é um operador (a "bola da vez") de um arranjo internacional ultraliberal, orientado pelos interesses de uma elite global. Seu alinhamento automático aos EUA, sua hostilidade aos vizinhos progressistas e seu desprezo pelo Mercosul expressam a dimensão geopolítica de um projeto subordinado e destrutivo. Seu governo se insere no ciclo global de reorganização das direitas radicais, que combinam autoritarismo cultural, ultraliberalismo econômico, destruição das políticas sociais e "cruzadas morais" contra qualquer horizonte progressista.
O desafio posto ao Brasil e à esquerda latino-americana é compreender a lógica desse novo populismo reacionário, que mobiliza afetos e ressentimentos para conservar o sistema e, resistindo às pressões externas, manter em pé a estabilidade democrática, a busca pela justiça social e a valorização da soberania e cultura dos países da região.
[2] O colapso de 2001–2002, marcado pelo fim da paridade cambial, congelamento de depósitos, desemprego em massa e pela queda de cinco presidentes em poucos dias, simbolizou o fracasso do modelo neoliberal argentino e a ruptura entre sociedade e sistema político.