sábado, 22 de fevereiro de 2025

Sobre os EUA - II - A crise de confiança na Aliança Ocidental

Por Hiran Mauá
Professor e Advogado
Mestre em Geografia (UFSCar)
Especialista em Relações Internacionais (FESPSP)

As recentes tratativas entre Donald Trump e Vladimir Putin para negociar um acordo de paz para a Guerra da Ucrânia têm causado forte preocupação entre seus aliados da OTAN. Durante a campanha presidencial, Trump repetia o chavão de que encerraria rapidamente a guerra e que os gastos militares dos EUA no apoio à Ucrânia eram injustificáveis. Obviamente, a única forma de cumprir o prometido era cedendo à Rússia, que vem em momento de avanço no campo de batalha e, portanto, posição de força na mesa de negociações.

Se tal acordo prosperar, em qualquer termo que seja, é vitória russa.

Ao excluir das negociações a Ucrânia (simplesmente o país atacado) e países europeus da OTAN (alguns dos quais foram grandes financiadores da defesa ucraniana), Trump mostra-se servil a Putin, solapa aliados tradicionais e condena um país que acreditou nas promessas estadunidenses. Trata-se de um momento dos mais baixos (talvez o mais baixo), em termos de credibilidade e confiança na história das relações internacionais dos Estados Unidos.

Se o andar da carruagem for esse, as mortes ucranianas terão sido em vão. Mais fácil teria sido ceder o território aos russos em troca de algum benefício. Mais inteligente para os ucranianos teria sido, no idos de 2014, não ter flertado com a adesão à União Europeia ou OTAN.

A OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), criada em 1949 no início da Guerra Fria (e, portanto, em um momento de formação dos arranjos estruturais que sustentariam sua ordem internacional) é uma aliança estratégica, de caráter militar (mas não somente), que tem por princípio a segurança coletiva e defesa mútua entre os países membros da Europa, Estados Unidos e Canadá. Ao longo de sua existência, foi o principal sustentáculo da contenção da expansão soviética pela Europa e, após o colapso comunista, transformou-se no principal instrumento da aliança entre Estados Unidos e países europeus. Embora tenha sido bem-sucedida em seus intentos, a OTAN deixou alguns efeitos colaterais, como a perda de capacidade de autodefesa europeia e o excesso de gastos por parte dos Estados Unidos. Na verdade, os países europeus terceirizaram sua segurança e defesa e foram gastar o dinheiro que sobrava com a manutenção de seus Estados de bem-estar social.

Donald Trump bate constantemente na tecla de que a OTAN é onerosa e injusta aos Estados Unidos. Está certo quanto aos gastos, e reclamar é do jogo. Mas não há nada de injusto para os Estados Unidos na OTAN. Ser a potência hegemônica, pela via da liderança, implica em agradar seus aliados. É isso ou partir para o caminho imperial da ameaça e da imposição.

Quando a República romana deu lugar ao Império, ainda muitos séculos viveu como grande potência. Mas o brilho havia ido embora.   

A forma como Trump parece entregar a Ucrânia de bandeja aos russos, inclusive exigindo reparação financeira por parte dos ucranianos e humilhando seus parceiros históricos naquilo que se convencionou chamar de "aliança ocidental", coloca os EUA em posição de suspeição. Se são capazes de trair assim aliados tão próximos, o que não fariam com outros países?

Em seu primeiro mandato, Trump já havia demonstrado sinais de suas intenções. Questionou o financiamento da OTAN, ameaçou retirar os Estados Unidos da aliança e adotou uma postura de isolamento em relação aos compromissos multilaterais. Sua visão de mundo não é a de um país líder de democracia capitalistas liberais, mas a de um Império que age por seus interesses imediatos, sem compromisso históricos. A diferença entre a liderança internacional e a força de um Império é justamente a previsibilidade e a confiabilidade dos acordos e compromissos firmados.

No entanto, há outra forma de entender a aparentemente inexplicável postura de Trump em relação à Ucrânia: a influência de uma agenda ideológica ultraconservadora que, em alguns pontos, se aproveita de bons termos com a Rússia de Putin e seus valores também conservadores e autoritários. O atual presidente americano é um dos mais chamativos megafones de um movimento global de extrema-direita que rejeita os valores democráticos liberais e que vê na Rússia como aliado no combate ao que chamam de "globalismo", ao multiculturalismo e à expansão dos direitos civis progressistas. As recentes ações de Trump no tabuleiro da Guerra da Ucrânia não fazem o menor sentido quando se leva em conta os interesses internacionais dos Estados Unidos, mas ganham fôlego quando se considera a as movimentações de setores ultraconservadores que enxergam em Putin um bastião contra os avanços dos setores progressistas em âmbito internacional.

Nessa linha, na guerra ideológica paralela que Trump, Musk, Bannon, e muitos outros combatem contra seus moinhos de vento, enfraquecer os países europeus e, quiçá, colapsar a OTAN, parece o preço a ser pago. A história ensina que uma Europa em crise é terreno fértil para a ascensão do nazifascismo. E talvez, no fundo, a grande estratégia oculta seja essa: humilhar a Europa a ponto de fazer a extrema-direita florescer novamente em solo europeu.

Isso explica porque Elon Musk tem apoiado, sem pudores, o partido neonazista alemão.

Para a Rússia, o cenário não podia ser melhor. Os Estados Unidos de joelhos por paranoia ideológica, a OTAN em crise, os europeus à deriva. Se a Europa tomar, novamente, o caminho torpe do autoritarismo, os russos terão a desculpa para recuperar as áreas de influência perdidas com a expansão da OTAN para o leste após o colapso da União Soviética. Letônia, Estônia, Lituânia e Polônia estão na reta.

Enquanto isso, a China vai expandindo os tentáculos de sua "Nova Rota da Seda" e ocupando comercialmente o vazio político deixado pelos Estados Unidos. A Rússia já tem caderneta de cliente fiel na mercearia chinesa. Os europeus parecem ser os próximos.

O capital está migrando violentamente para a Ásia e a China é o maestro desse movimento. Sem conseguir impedir esse movimento, os Estados Unidos insistem, pateticamente, em maluquices ideológicas.


Para referências bibliográficas (padrão ABNT):

MAUÁ FILHO, Clovis Hiran Fuentes. Sobre os EUA - II - A crise de confiança na Aliança Ocidental. Blog do ISEP, 22 fev. 2025. Disponível em: https://www.blogdoisep.com.br.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Sobre os EUA - I - Donald Trump e Estados Unidos - Decadência ou Reviravolta?

Por Hiran Mauá
Advogado e Presidente do ISEP
Professor da Faculdade de Direito de Itu (FADITU)
Licenciado e Mestre em Geografia (UFSCar)
Especialista em Relações Internacionais (FESPSP)
Bacharel em Direito (UEL)


A carga ideológica imbuída na segunda vitória eleitoral de Donald Trump ao governo dos EUA é de assustar àqueles que, assim como eu, veem no mandatário estadunidense uma espécie de pessoa e de visão de mundo altamente reprováveis. Agora, verdade seja dita, Donald Trump nunca enganou sobre como pensa - e, mesmo assim, foi eleito duas vezes.

Buscando uma análise de projeção futura, é muito difícil prever o que o segundo governo Trump representará na geopolítica e no sistema internacional, pois é na imprevisibilidade e na ameaça do caos que seu jogo se torna poderoso e envolvente.

É evidente que os EUA são, há décadas e atualmente, os líderes hegemônicos do atual sistema internacional e os principais arquitetos de uma ordem que vige para beneficiar seus interesses. Contudo, penso aqui, como hipótese, que o atual momento seja de relativa decadência para os EUA. É como se a vitória trumpista simbolize mais um ato de força bruta de um país ferido do que uma grande reviravolta capaz de fazer a América great again e, o mundo, mais conservador e submisso aos yankees.

Penso se a força política de Trump não seria mais um sintoma de um processo já existente de relativa decadência hegemônica do que uma de suas causas. Ou seja, é porque há uma decadência relativa dos EUA e uma fissura no 'estado de coisas' na ordem internacional que Donald Trump se fez viável - e não o contrário. Isto posto, imagino: se essa decadência relativa for real e Donald Trump for um de seus maiores beneficiados, que interesse teria ele em revertê-la? Trocando em miúdos: Donald Trump, apesar de seu discurso de força e nacionalismo, aproveita-se em muito da decadência que promete combater.

Historicamente, o vasto exercício hegemônico dos Estados Unidos no sistema internacional não se limitou à supremacia militar ou ao domínio econômico, mas também se valeu de sua capacidade de liderar culturalmente e inspirar outras nações (algo que as Relações Internacionais denominam como soft power), com valores liberais estruturantes como a democracia, a liberdade individual e a inovação cultural. A capacidade inspiradora dos EUA no século XX foi tão grande que estruturou o aspecto cultural da globalização hegemônica. Mas, hoje, o soft power americano sofreu intensos abalos. Seus valores civilizacionais foram tão vilipendiados (inclusive pelos próprios Estados Unidos) que agora encontram-se em crise de legitimidade. Quantas vozes clamam hoje por ditaduras em qualquer esquadro do alinhamento político. O que diriam os founding fathers sobre o que acontece atualmente?

Os princípios que Trump combate (ou diz combater) na ordem internacional foram criados pelos EUA e pensados para consolidar sua hegemonia na esfera ocidental após a Segunda Guerra Mundial. Instituições como a ONU, o FMI e a OMC, juntos a uma ordem mantida pelos arranjos de Bretton Woods, favoreceram os Estados Unidos e ainda os favorecem. De forma que tentar mudá-los ou destruí-los é sintoma de que algo não anda bem.

E se caso você duvide que o sistema ONU favoreceu por décadas os EUA, entenda que a Rússia só invadiu impunemente a Ucrânia em 2022 porque os EUA fizeram o mesmo com o Iraque, em 2003. O sistema sempre pesou para o lado yankee, mesmo nos momentos mais calorosos da Guerra Fria.

Atualmente, sentindo o cheiro de sangue vindo do predador ferido, potências como China e Rússia vêm criando redes internacionais paralelas que contestam as regras postas e minam as capacidades do Ocidente (por exemplo, de exercer sanções econômicas), aglutinando países como Irã, Coreia do Norte e Venezuela, considerados hostis à uma ideia civilizacional de "Ocidente". A flagrante decadência da Europa e a estagnação do Japão agravam a pressão sistêmica nos EUA, reduzindo a coesão de seu bloco - e fazendo ganhar eco na opinião pública americana quanto à ideia de abandonar os tradicionais parceiros internacionais à própria sorte.

Aqui, vale a pena lembrar: o Brasil não pertence ao que se denomina como "Ocidente". Somos latinos e isso é outra coisa, como afirmou Samuel Huntington, em sua péssima e, mesmo assim, muito influente teoria do 'choque de civilizações'. Um dos maiores erros que se faz no Brasil, por analistas de todo tipo, é vincular os interesses nacionais a uma ideia civilizacional que nos rejeita ou, na mais amigável das hipóteses, nos aceita em condição de inferioridade. Mas também é um erro enxergar em Rússia, China e BRICS expandido uma espécie de "cinturão anti-imperialismo". Esses gigantes possuem suas próprias agendas imperialistas. Mesmo o Brasil, ambiciona maior poder sobre a área de influência que entende como sua: América do Sul, Atlântico Sul e países africanos da lusofonia.

Hoje, há quem duvide de lições singelas como a curvatura da superfície terrestre - culpa dos grandes magnatas das redes sociais - talvez os maiores vencedores dessa conjuntura atual. Se qualquer pessoa é capaz de atingir milhões de pessoas nas redes sociais para esbravejar contra a esfericidade do planeta, o que impede essa gente de negar os valores da democracia?

As décadas de abandono do Welfare State - que, afinal, foi a base que projetou os Estados Unidos à liderança global -, também cobram agora o seu preço, nos EUA e mundo afora. O neoliberalismo afasta as promessas do capitalismo de bem-estar social, retira-lhe o encanto e mostra o sistema como ele: individualista e selvagem. No plano interno estadunidense, problemas estruturais como racismo, xenofobia, ausência de políticas públicas sociais (a saúde pública o mais flagrante caso) e uma visão messiânica do livre-mercado comprometem a coesão nacional, o espírito de inovação e a capacidade de renovação da mão de obra.

E não dá para liderar e inspirar internacionalmente de forma plena se não há coesa interna. O que sobra é fazer terror sobre o Canadá, a Groenlândia ou o Panamá.

Enquanto isso, a armadilha demográfica já surte efeitos. Aproximadamente 4,8 bilhões de pessoas são asiáticas - e o eixo da produção de capital vem, evidentemente, se transferindo para lá. Afinal, o que produz capital é o trabalho, e quem trabalha são as pessoas. China e Índia já perceberam as benesses geopolíticas de suas populações imensas - da mão de obra fabril ao alistamento militar.

Mas, enfim, se a ordem internacional contra a qual Trump vocifera realmente ruir, seria mesmo bom para os Estados Unidos?

Contudo, esse não é um discurso fatalista. Há décadas ouvimos os arautos do fim da hegemonia yankee perderem suas apostas. As bases da hegemonia americana ainda permanecem robustas e o país é um especialista em derrotar projetos hegemônicos rivais (Reino Unido, Alemanha e União Soviética bem o sabem). Os EUA ainda possui o maior PIB global, a maioria das melhores universidades do mundo, forças armadas esmagadoramente superiores e vasto domínio tecnológico. Esses fatores de poder conferem uma larga vantagem frente aos rivais.

Os Estados Unidos continuam a ser o ator central no sistema internacional. E ainda são (embora pareçam se esforçar para deixar de ser) a referência cultural global. Mas as coisas já foram bem melhores para os lados de Washington.

Donald Trump está rugindo, mas os EUA darão o bote ou é apenas barulho de quem está ferido? Em um cenário de instabilidade ou caos sistmêmico, tudo pode mudar em um golpe de oportunismo. Talvez seja apostando nisso que Trump pareça jogar contra as odds da casa de apostas que ele mesmo comanda. Seu All in é blefe ou a sorte sorriu-lhe mais uma vez?



Para referências bibliográficas (padrão ABNT):

MAUÁ FILHO, Clovis Hiran Fuentes. Sobre os EUA - I - Donald Trump e Estados Unidos - Decadência ou Reviravolta? Blog do ISEP, 9 jan. 2025. Disponível em: https://www.blogdoisep.com.br.


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