domingo, 1 de março de 2026

Quando o verniz descasca: a morte de Ali Khamenei e a ruptura da ordem

Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel deflagraram as operações "Fúria Épica" ("Epic Fury") e "Leão que Ruge" ("Roaring Lion"), compostas por ataques múltiplos e coordenados a alvos estratégicos no Irã que resultaram no assassinato do Aiatolá Ali Khamenei e de outras altas lideranças da República Islâmica do Irã (incluindo o comandante da Guarda Revolucionária e o Ministro da Defesa), além, é claro de centenas ou milhares de civis, que são geralmente entendidos, pelos senhores da guerra de sempre, como mero "efeito colateral".

O objetivo declarado dessa ação militar de “decapitação” é operar uma engenharia de regime, isto é, forçar uma mudança completa do arranjo de poder em Teerã (The Guardian, 2026). A operação, portanto, não se limita à neutralização das capacidades militares iranianas (mísseis, radares, cadeias de comando), mas busca atingir a própria continuidade política do regime teocrático. E, ao fazê-lo, solapa dois princípios organizadores da modernidade estatal: a soberania territorial e a integridade do comando político em situação de “paz” (isto é, sem guerra declarada e sem autorização multilateral).

A eliminação do Líder Supremo e de elementos da alta cúpula inaugurou uma crise de governança em Teerã, com a formação de um arranjo provisório até a escolha do sucessor pela Assembleia de Especialistas, incluindo a nomeação de Alireza Arafi como líder interino (Reuters, 2026, online; Al Jazeera, 2026, online). Com a morte de Khamenei, o problema imediato não é apenas quem será o novo líder do Irã. O desenrolar político imediato é um dos maiores determinantes para a recomposição ou destruição do regime teocrático. Teerã é o centro do comando político, religioso e securitário do Irã - um país onde as populações espalhadas pelo país não necessariamente seguem de bom grade o comando que emana da capital. A grande força política interna é a Guarda Revolucionária, que possui as capacidades para impor à ordem sua vontade (The Guardian, 2026). Mas é preciso esperar a poeira das explosões assentar para entender que rumos o país tomará.

Há interesses materiais em jogo que não podem ser varridos para baixo do tapete. O Estreito de Ormuz é um gargalo planetário da geopolítica de energia e a simples ameaça de interdição já é suficiente para produzir pânico logístico e volatilidade de preços nos hidrocarbonetos. Não por acaso, a escalada foi seguida por salto expressivo no preço do petróleo e o temor de ruptura no fluxo global (Reuters, 2026, online). Há, ainda, o tabuleiro mais amplo: enfraquecer o Irã significa tensionar a projeção regional chinesa e russa e reprogramar a correlação de forças no Oriente Médio (Reuters, 2026, online). Iranianos e chineses assinaram em 2021 um acordo econômico que vinha resultando em um comércio positivo para ambos os lados (com o Irã abastecendo a China com petróleo, e a China abastecendo o mercado interno iraniano com produtos industrializados). Com a Rússia, o Irã exporta armamento (especialmente drones) utilizados na guerra com a Ucrânia.

No plano imediato, a lógica predominante parece ter sido a de retirar do jogo um ator declaradamente inimigo, fortalecendo as posições estadunidenses e israelenses. Quanto ao chamado “arco de influência” iraniano no entorno regional, uma decapitação no centro tende a produzir uma crise de coordenação e desorganização nos vínculos "por procuração" (proxies). Isso não significa o colapso automático de aliados como Houthis, Hamas e Hezbollah, mas é de se imaginar a perda de direção unificada e aumento do custo político e operacional para se manter uma estratégia regional coerente.

Em paralelo ao ataque físico, opera-se o desabrochar de narrativas favoráveis ao ato. Setores do discurso ocidental (mormente os detentores da grande mídia e das redes sociais) passaram a enquadrar a ofensiva como moralmente positiva sob o argumento de que abreviaria uma teocracia autoritária e, no futuro, melhoraria a condição das mulheres no país. Contudo, é possível (e devido) reconhecer o inaceitável caráter autoritário e repressor da República Islâmica sem embarcar inocentemente no "salto lógico" (e falacioso) que transforma uma mudança de regime "pelo alto" mediante assassinatos em um ato de humanitarismo. Essa narrativa configura um verniz mal aplicado que tenta recobrir a superfície dos fatos com uma moralidade seletiva.

Na teoria do realismo estrutural em relações internacionais, tem-se visto por parte dos players majoritários o retorno do cálculo de sobrevivência pela desconfiança das garantias dadas pela ordem sistêmica. Kenneth Waltz descreve o ambiente internacional como um sistema no qual os incentivos para competir são fortes e onde, sob pressão, os Estados tendem a emular estratégias bem-sucedidas no passado (Waltz, 1993). Dessa forma, tomando por base a oportunista invasão dos EUA ao Iraque em 2003 (imaginando que a invasão ao Afeganistão de 2001 guardava algum arremedo de justificativa), se deu uma sucessão de eventos de afronta à ordem liberal então vigente - marcadamente as invasões russas da Crimeia (2014) e de toda a Ucrânia (2022), e, agora em 2026, as ações pontuais de sequestro de Nicolás Maduro (Venezuela) e no assassinato de Ali Khamenei. 

Não há ordem internacional supostamente baseada em diplomacia, multilateralismo, direito internacional e busca pelo livre-comércio que sustente, por tanto tempo, tantos usos de recursos de hard power.

Parece, aliás, que a ordem internacional baseada em regras somente é "ordem" e possui "regras" quando convém à potência hegemônica. O resto é retórica. O recente discurso do Primeiro-Ministro Canadense, Mark Carney, no Forum Econômico Mundial ("Forum de Davos"), é emblemático. Transcrevo alguns pontos (WEF, 2026, online) :

"Hoje falarei sobre uma ruptura na ordem mundial, o fim de uma ficção agradável e o início de uma dura realidade, onde a geopolítica, onde a grande potência, a geopolítica, não está sujeita a limites, a nenhuma restrição. [...]. Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa, que os mais fortes se isentariam quando lhes convinha, e que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional se aplicava com rigor variável, dependendo da identidade do acusado ou da vítima. [...]. Essa ficção foi útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos, rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de disputas. [...]. Este acordo já não funciona. Deixe-me ser direto. Estamos em meio a uma ruptura, não a uma transição. [...].

Waltz (1993) afirma que “anarquia” não é caos absoluto, mas um ambiente estrutural de competição e incerteza, no qual a antecipação "do pior" é o fundamento da racionalidade política. Quando os precedentes de ruptura da ordem se impõem, os incentivos ao comportamento anti-sistêmico aumentam. Se a soberania estatal se mostra relativa, o cálculo de sobrevivência física prevalece. Por exemplo, quando do ataque estadunidense à Venezuela, a primeira reação do Presidente Lula foi convocar uma reunião de emergência onde, entre outros assuntos, questionou a cúpula das forças armadas sobre a capacidade brasileira de repelir evento semelhante no país. Se Lula se preocupou com o que ocorreu na Venezuela, é de se imaginar como estão os pensamentos dos líderes do Oriente Médio neste momento...  

Para os neoliberais Robert Keohane e Joseph Nye (2001) a vigência dos regimes internacionais (como as regras do "sistema ONU" ou da OMC) reduz custos de transação, produz informação e viabiliza acordos; quando esses regimes são ignorados, o custo da cooperaração internacional aumenta e a penalidade em se burlar a ordem diminui - e a incerteza se espalha. O que se viu na impotência do Conselho de Segurança é justamente a imagem de um regime internacional incapaz de impor previsibilidade (Associated Press, 2026) e aplicar sanções.

Cabe também citar Huntington (1993) e o racismo que sua teoria do "choque de civilizações" abriga na leitura de diversos políticos, diplomatas e comandantes militares dos EUA. O discurso islamofóbico e de guerra cultural/civilizatória que teve seu auge durante a "Guerra ao Terror" é atualmente requentado pelo governo Trump e congêneres da extrema-direita europeia.

Os impactos da morte de Khamenei, portanto, extrapolam a soberania iraniana e seu futuro. Pouco tempo após o ataque à Venezuela, a decapitação da teocracia iraniana é um recado israelo-estadunidense nada sutil para todo o mundo (em especial, à China e Rússia) de que a força bruta é a vontade última e que a própria potência hegemônica que estabeleceu a ordem então vigente a pode destruí-la, se isso lhe bem convier.


Referências bibliográficas:

AL JAZEERA. Who are the council members temporarily in charge of Iran? Doha, 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2026/3/1/who-are-the-council-members-temporarily-in-charge-of-iran. Acesso em: 01 mar. 2026.
ASSOCIATED PRESS (AP). US and Israel clash with Iran at emergency Security Council meeting; UN chief condemns attacks. New York, 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/ 9140bca9241fb99be8cb3cff2c650741. Acesso em: 01 mar. 2026.
HUNTINGTON, Samuel P. "The Clash of Civilizations?". Foreign Affairs, v. 72, n. 3, p. 39-49, 1993. 
KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S. Poder e interdependência: a política mundial em transição. Tradução de Vera Ribeiro. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
REUTERS. Alireza Arafi appointed to Iran's Leadership Council, ISNA reports. Dubai, 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/media-telecom/alireza-arafi-appointed-irans-leader ship-council-isna-reports-2026-03-01/. Acesso em: 01 mar. 2026.
REUTERS. Oil jumps 10% on Iran conflict and could spike to $100 a barrel, analysts say. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/energy/oil-jumps-10-iran-conflict-could-spike-100-barrel-analysts-say-2026-03-01/. Acesso em: 01 mar. 2026.
THE GUARDIAN. Iran state media confirms killing of Ayatollah Ali Khamenei after US-Israeli missile strikes. London, 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/us-news/2026/feb/28/khamenei-likely-killed-us-israel-iran-strikes. Acesso em: 01 mar. 2026.
WALTZ, Kenneth N. The emerging structure of international politics. International Security, Cambridge, v. 18, n. 2, p. 44-79, 1993.
WORLD ECONOMIC FORUM (WEF). Davos 2026: Special address by Mark Carney, Prime Minister of Canada. World Economic Forum, 20 jan. 2026. Disponível em: https://www.weforum.org/stories/ 2026/01/davos-2026-special-address-by-mark-carney-prime-minister-of-canada. Acesso em: 1 mar. 2026.

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