sábado, 21 de junho de 2025

Psicologia e Ideologia

Por João Paulo Salva
Professor da Faculdade de Direito de Itu (FADITU)
Mestre em Sociologia (UNICAMP)
Psicólogo (PUCCAMP) e Sociólogo (UNICAMP)

I

É corrente o entendimento de que as subjetividades são formadas por complexas interações com o ambiente. Nesse sentido, todos parecem aceitar que categorias como cultura e sociedade são partes estruturantes dos indivíduos. No entanto, no discurso hegemônico daqueles que atuam com saúde mental, não é incomum o olhar sobre o indivíduo partir de uma perspectiva absolutamente apartada daquilo que era dado como irrefutável: a sociedade. É sobre essa contradição que esta reflexão se propõe a discutir.

Profissionais de Psicologia emitem discursos nitidamente contraditórios sobre essa problemática, pois,  se de um lado, afirmam que os sujeitos são seres sociais; por outro, apressam-se em diagnosticar patologias sob um modelo que individualiza o sofrimento como algo sem o referente externo.

Um bom exemplo pode ser dado a partir da proliferação dos diagnósticos de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), que atinge não somente crianças em idade escolar, mas também uma gama significativa de adultos que, de algum modo, se sentem em dificuldades diante de exigências laborativas. Estima-se que cerca de 7% da população brasileira apresente sintomas compatíveis com o referido transtorno. Mas como se dá o processo de avaliação dessa patologia? Normalmente, a avaliação é neuropsicológica, ou seja, o fundamento de análise recai quase exclusivamente sobre funções como atenção, percepção e cognição. Pode-se afirmar que há uma lógica interna nesse modelo avaliativo: se os sintomas anunciados pelos pacientes ou pelas instituições escolares estão relacionados a essas funções, nada mais natural que elas sejam objeto de exame.

Mas como é possível referir um transtorno de atenção sem levar em consideração a infinidade de fatores externos que determinam a experiência do mundo? O modelo de escola que padroniza a aprendizagem tal como as fábricas padronizam sua produção; a escassez de tempo livre, que impede a reflexão sobre si; as exigências do mundo do trabalho, onde o multitasking é a palavra de ordem.

Talvez Sócrates tivesse sido diagnosticado com TDAH se vivesse no presente (um tempo que exige de nós mais do que podemos oferecer) - e a cicuta dos nossos dias seja o laudo que patologiza modos de agir, ser e pensar.

II

O modelo de fazer psicológico que privilegia a completa individualidade do sintoma para justificar um diagnóstico específico não é ingênuo: está atrelado a valores ideológicos específicos. E mesmo que o profissional não perceba tais determinantes, ainda assim reproduz as marcas desses valores. Assim como qualquer outra ciência, a Psicologia não está imune à ideologia que atravessa todos os traços da sociedade. Para citar Theodor Adorno: “nada singular encontra paz no todo não pacificado”. E o que perturba a paz?

Na perspectiva aqui proposta, a ideologia do sujeito como único responsável por seus méritos e fracassos — o “indivíduo empreendedor”, self-made man, protótipo exemplar do capitalismo — corrói as entranhas da ciência e do fazer psicológico.

A lacuna entre discurso e prática parece intransponível. Mesmo quando se reconhece a importância da sociedade na constituição do sujeito, ao avaliar e diagnosticar, o recorte individualizante se impõe brutalmente.

A Psicologia não está, de modo algum, afastada das relações sociais de produção. Ao individualizar o sofrimento, a patologia passa a ser vista como mera inaptidão do sujeito para o trabalho. Não à toa, ainda prevalece a distinção entre o “normal” e o “patológico” (o outsider), baseada em critérios morais e de identificação com esta sociedade. Nesse sentido, a Psicologia ocupa um papel fundamental: “aparar as arestas” de qualquer desvio do indivíduo diante da realidade. Técnicas e teorias apaziguam a falsidade da totalidade. Todo estranhamento diante do capitalismo é catalogado como patologia, como anormalidade.

O Burnout (e a própria preferência pelo nome em inglês já é, por si só, reveladora) é um exemplo evidente. É sabido que as metas estabelecidas pelas empresas são absurdas, que os indivíduos trabalham até “virar suco” e que o salário nunca compensa o esforço — esforço este diretamente proporcional ao medo da perda do trabalho, sob a ameaça nem sempre velada dos gestores.

Ainda assim, a patologia do esgotamento é tratada como um problema de autocuidado ou como expressão de condicionantes intrapsíquicas e comportamentais do sujeito “esgotado”. Diante disso, pode-se afirmar: a mais-valia alavanca consultórios, influencers de saúde mental e a indústria farmacêutica — e nenhuma dessas instâncias interroga, por óbvio, o modo de produção capitalista que produz o problema.

III

Em se tratando de Psicologia, o que se afirma neste texto não é novidade. Desde seu surgimento como profissão, ela esteve alinhada à ideologia dominante. Vale lembrar que sua profissionalização se deu em meio aos anos mais delicados da ditadura militar brasileira, e não por pressão de grupos progressistas, mas por interesse do regime autoritário, que via na Psicologia uma ciência útil para diagnosticar qualquer traço de pensamento dissidente como anormalidade. O caso do médico e psicanalista Amílcar Lobo é, nesse sentido, emblemático. Psicanalista assistente em sessões de tortura conduzidas nos porões dos quartéis, sua atuação simboliza a técnica psicológica a serviço da eliminação dos que ousaram questionar.

Hoje, o aparato ideológico da Psicologia é mais sutil e, por isso mesmo, mais avançado do ponto de vista técnico. A tortura deu lugar ao silenciamento das determinações sociais do sofrimento; a prisão cede espaço aos laudos; e a docilização dos corpos é alcançada pela medicalização constante.

Ao caro leitor, fica o questionamento: o que fazer diante dessa realidade? Evidente que não se trata de jogar a ciência na lata do lixo. Como parte do movimento histórico que faz o espírito avançar, a Psicologia contribuiu — e contribui — com conquistas para a humanidade.

Mas a história se faz pelas contradições, e isso não se pode apagar. Olhar para o movimento do real é olhar para suas tensões. Supor que a realidade se esgota no indivíduo é transformar a razão em instrumento da perversidade do modo de vida a que estamos sujeitos. Assim sendo, a crítica deve ser o objetivo central da Psicologia. E para exercer essa crítica, ela não pode se apartar da Economia, do Direito, da Sociologia, da História e de outras tantas ciências que se propõem a compreender a realidade social.

O compromisso ético de um saber que se pretende voltado à dignidade dos sujeitos é o de apresentar as contradições sociais que geram sofrimento. Não existe neutralidade científica, mas sim hegemonias e contra-hegemonias. E se é verdade que “o todo é falso”, como afirmou Adorno, nada resta de verdade além da necessidade permanente da crítica.


Para referências bibliográficas (padrão ABNT):

SALVA, João Paulo dos Santos. Psicologia e Ideologia. Blog do ISEP, 21 jun. 2025. Disponível em: https://blogdoisep.blogspot.com

domingo, 1 de junho de 2025

Sobre Direito e reflexão filosófica

Por João Paulo Salva
Professor da Faculdade de Direito de Itu (FADITU)
Mestre em Sociologia (UNICAMP)
Psicólogo (PUCCAMP) e Sociólogo (UNICAMP)

Se é bem verdade que o espanto se encarrega de dar início à Filosofia, é altamente recomendável verificarmos se ainda somos capazes de nos espantar e, por conseguinte, de iniciar a laboriosa atividade de Sísifo. O conhecimento liberta, mas não é imediato aos sentidos e, assim como uma pedra, deve ser carregado nas montanhas da incerteza, com o intuito de acalentar os corações perplexos diante do mundo.

A questão se sustenta na medida em que é cada vez mais comum nos depararmos com um questionamento estudantil acerca da utilidade de um determinado conhecimento, sobretudo quando este conhecimento não possui (aos olhos mais ingênuos) estreita conexão com a profissão escolhida. Questionar nunca é um erro, e sua pertinência é tão clara quanto o Sol, mas o questionamento que já possui em si uma resposta que invalida o próprio questionamento é desprovido de lógica — ou melhor, talvez esteja alicerçado sobre uma lógica um tanto quanto perversa.

Normalmente, quando alguém questiona a validade do estudo da Filosofia em um curso de Direito, não o faz com o intuito dionisíaco de desmascarar o conteúdo racional e, muitas vezes, ortodoxo da disciplina. Ao contrário, questiona de uma maneira desapaixonada e aceita, prontamente, para si, a alcunha de “operador do Direito”. Nesse sentido, de uma só vez, dois golpes são desferidos naquilo que classicamente chamamos de Universidade e de Direito. O primeiro diz respeito ao fato de que, da perspectiva estudantil, a Universidade já não é o lugar do conhecimento; e o segundo, talvez o conhecimento nem tenha seu lugar.

De fato, é muito estranho chamar um advogado de operador do Direito. É inevitável a vinculação de tal significante a uma lógica fordista ou metalúrgica, onde a separação entre operadores, técnicos, programadores e preparadores é tão difundida - reflexo da divisão do trabalho. Mas isso deve se aplicar aos que um dia se propuseram a lidar com as normas jurídicas?

As normas jurídicas, embora dispostas em códigos, não nascem de uma lógica binária, ao estilo dos computadores, celulares e máquinas operatrizes. As normas jurídicas refletem contextos históricos, conceitos morais e concepções de mundo, ao mesmo tempo em que, por sua posição na sociedade, também ressoam na história, na ética e na forma como os indivíduos experienciam as regras sociais.

Diante disso, se é aceita a ideia de que simplesmente se opera com o dado, ignorando que a realidade empírica da norma jurídica é fruto de uma tensa construção inacabada e suscetível aos solavancos da história, o trabalho do advogado fica restrito a um agir com as sombras, na percepção de que isso esgota a realidade. Não é distante, nem configura delírio conspiratório, a ideia de que essa concepção tecnicista do Direito dá início ao próprio fim da profissão. Afinal, não estão as inteligências artificiais a fazer toda e qualquer operação técnica?

Tomar o Direito para além da profissão não significa abandonar seu caráter profissional, mas sim compreender que não é possível realizá-la sem a perplexidade própria dos que refletem. O Direito não é estático, e a transformação do tempo se encarrega da necessidade constante de repensar, desconstruir e reconstruir a normatividade.

O risco e o riso denunciam a falta de espanto, pois, ao cobrirmos o Direito de uma ideologia que apaga a necessidade de pensar, em detrimento do "profissionalizar para capitalizar", justifica-se a posição onde o príncipe de Maquiavel e o pequeno príncipe de Saint-Exupéry assumem o mesmo papel político.

No final das contas, parece ser possível “operar com o Direito” sem o devido cuidado, mas “fazer o Direito” é outra coisa! Nessa perspectiva, não é possível deixar à míngua nem a Norma Fundamental, nem a fundamentação da razão prática e muito menos a crítica no sentido stricto.


Para referências bibliográficas (padrão ABNT):

SALVA, João Paulo dos Santos. Sobre Direito e reflexão filosófica. Blog do ISEP, 1 jun. 2025. Disponível em: https://blogdoisep.blogspot.com .

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