quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Sobre os EUA - I - Donald Trump e Estados Unidos - Decadência ou Reviravolta?

Por Hiran Mauá
Advogado e Presidente do ISEP
Professor da Faculdade de Direito de Itu (FADITU)
Licenciado e Mestre em Geografia (UFSCar)
Especialista em Relações Internacionais (FESPSP)
Bacharel em Direito (UEL)


A carga ideológica imbuída na segunda vitória eleitoral de Donald Trump ao governo dos EUA é de assustar àqueles que, assim como eu, veem no mandatário estadunidense uma espécie de pessoa e de visão de mundo altamente reprováveis. Agora, verdade seja dita, Donald Trump nunca enganou sobre como pensa - e, mesmo assim, foi eleito duas vezes.

Buscando uma análise de projeção futura, é muito difícil prever o que o segundo governo Trump representará na geopolítica e no sistema internacional, pois é na imprevisibilidade e na ameaça do caos que seu jogo se torna poderoso e envolvente.

É evidente que os EUA são, há décadas e atualmente, os líderes hegemônicos do atual sistema internacional e os principais arquitetos de uma ordem que vige para beneficiar seus interesses. Contudo, penso aqui, como hipótese, que o atual momento seja de relativa decadência para os EUA. É como se a vitória trumpista simbolize mais um ato de força bruta de um país ferido do que uma grande reviravolta capaz de fazer a América great again e, o mundo, mais conservador e submisso aos yankees.

Penso se a força política de Trump não seria mais um sintoma de um processo já existente de relativa decadência hegemônica do que uma de suas causas. Ou seja, é porque há uma decadência relativa dos EUA e uma fissura no 'estado de coisas' na ordem internacional que Donald Trump se fez viável - e não o contrário. Isto posto, imagino: se essa decadência relativa for real e Donald Trump for um de seus maiores beneficiados, que interesse teria ele em revertê-la? Trocando em miúdos: Donald Trump, apesar de seu discurso de força e nacionalismo, aproveita-se em muito da decadência que promete combater.

Historicamente, o vasto exercício hegemônico dos Estados Unidos no sistema internacional não se limitou à supremacia militar ou ao domínio econômico, mas também se valeu de sua capacidade de liderar culturalmente e inspirar outras nações (algo que as Relações Internacionais denominam como soft power), com valores liberais estruturantes como a democracia, a liberdade individual e a inovação cultural. A capacidade inspiradora dos EUA no século XX foi tão grande que estruturou o aspecto cultural da globalização hegemônica. Mas, hoje, o soft power americano sofreu intensos abalos. Seus valores civilizacionais foram tão vilipendiados (inclusive pelos próprios Estados Unidos) que agora encontram-se em crise de legitimidade. Quantas vozes clamam hoje por ditaduras em qualquer esquadro do alinhamento político. O que diriam os founding fathers sobre o que acontece atualmente?

Os princípios que Trump combate (ou diz combater) na ordem internacional foram criados pelos EUA e pensados para consolidar sua hegemonia na esfera ocidental após a Segunda Guerra Mundial. Instituições como a ONU, o FMI e a OMC, juntos a uma ordem mantida pelos arranjos de Bretton Woods, favoreceram os Estados Unidos e ainda os favorecem. De forma que tentar mudá-los ou destruí-los é sintoma de que algo não anda bem.

E se caso você duvide que o sistema ONU favoreceu por décadas os EUA, entenda que a Rússia só invadiu impunemente a Ucrânia em 2022 porque os EUA fizeram o mesmo com o Iraque, em 2003. O sistema sempre pesou para o lado yankee, mesmo nos momentos mais calorosos da Guerra Fria.

Atualmente, sentindo o cheiro de sangue vindo do predador ferido, potências como China e Rússia vêm criando redes internacionais paralelas que contestam as regras postas e minam as capacidades do Ocidente (por exemplo, de exercer sanções econômicas), aglutinando países como Irã, Coreia do Norte e Venezuela, considerados hostis à uma ideia civilizacional de "Ocidente". A flagrante decadência da Europa e a estagnação do Japão agravam a pressão sistêmica nos EUA, reduzindo a coesão de seu bloco - e fazendo ganhar eco na opinião pública americana quanto à ideia de abandonar os tradicionais parceiros internacionais à própria sorte.

Aqui, vale a pena lembrar: o Brasil não pertence ao que se denomina como "Ocidente". Somos latinos e isso é outra coisa, como afirmou Samuel Huntington, em sua péssima e, mesmo assim, muito influente teoria do 'choque de civilizações'. Um dos maiores erros que se faz no Brasil, por analistas de todo tipo, é vincular os interesses nacionais a uma ideia civilizacional que nos rejeita ou, na mais amigável das hipóteses, nos aceita em condição de inferioridade. Mas também é um erro enxergar em Rússia, China e BRICS expandido uma espécie de "cinturão anti-imperialismo". Esses gigantes possuem suas próprias agendas imperialistas. Mesmo o Brasil, ambiciona maior poder sobre a área de influência que entende como sua: América do Sul, Atlântico Sul e países africanos da lusofonia.

Hoje, há quem duvide de lições singelas como a curvatura da superfície terrestre - culpa dos grandes magnatas das redes sociais - talvez os maiores vencedores dessa conjuntura atual. Se qualquer pessoa é capaz de atingir milhões de pessoas nas redes sociais para esbravejar contra a esfericidade do planeta, o que impede essa gente de negar os valores da democracia?

As décadas de abandono do Welfare State - que, afinal, foi a base que projetou os Estados Unidos à liderança global -, também cobram agora o seu preço, nos EUA e mundo afora. O neoliberalismo afasta as promessas do capitalismo de bem-estar social, retira-lhe o encanto e mostra o sistema como ele: individualista e selvagem. No plano interno estadunidense, problemas estruturais como racismo, xenofobia, ausência de políticas públicas sociais (a saúde pública o mais flagrante caso) e uma visão messiânica do livre-mercado comprometem a coesão nacional, o espírito de inovação e a capacidade de renovação da mão de obra.

E não dá para liderar e inspirar internacionalmente de forma plena se não há coesa interna. O que sobra é fazer terror sobre o Canadá, a Groenlândia ou o Panamá.

Enquanto isso, a armadilha demográfica já surte efeitos. Aproximadamente 4,8 bilhões de pessoas são asiáticas - e o eixo da produção de capital vem, evidentemente, se transferindo para lá. Afinal, o que produz capital é o trabalho, e quem trabalha são as pessoas. China e Índia já perceberam as benesses geopolíticas de suas populações imensas - da mão de obra fabril ao alistamento militar.

Mas, enfim, se a ordem internacional contra a qual Trump vocifera realmente ruir, seria mesmo bom para os Estados Unidos?

Contudo, esse não é um discurso fatalista. Há décadas ouvimos os arautos do fim da hegemonia yankee perderem suas apostas. As bases da hegemonia americana ainda permanecem robustas e o país é um especialista em derrotar projetos hegemônicos rivais (Reino Unido, Alemanha e União Soviética bem o sabem). Os EUA ainda possui o maior PIB global, a maioria das melhores universidades do mundo, forças armadas esmagadoramente superiores e vasto domínio tecnológico. Esses fatores de poder conferem uma larga vantagem frente aos rivais.

Os Estados Unidos continuam a ser o ator central no sistema internacional. E ainda são (embora pareçam se esforçar para deixar de ser) a referência cultural global. Mas as coisas já foram bem melhores para os lados de Washington.

Donald Trump está rugindo, mas os EUA darão o bote ou é apenas barulho de quem está ferido? Em um cenário de instabilidade ou caos sistmêmico, tudo pode mudar em um golpe de oportunismo. Talvez seja apostando nisso que Trump pareça jogar contra as odds da casa de apostas que ele mesmo comanda. Seu All in é blefe ou a sorte sorriu-lhe mais uma vez?



Para referências bibliográficas (padrão ABNT):

MAUÁ FILHO, Clovis Hiran Fuentes. Sobre os EUA - I - Donald Trump e Estados Unidos - Decadência ou Reviravolta? Blog do ISEP, 9 jan. 2025. Disponível em: https://www.blogdoisep.com.br.


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